
Jamais estive tão perto de um precipício como agora.
O sentimento do erro misturado à vontade do fazer e a luta interior de não saber como.
O passado traz sempre a lembrança do que me foi roubado...
Ou que por mim tenha sido mesmo perdido.
Não há quem culpar.
O tempo é hábil e corrói o autocontrole assim que volta com a certeza do novo velho sentir...
Os medos causados pelo novo, pelo efêmero, são incontroláveis quando se tem assim, pouca idade...
Era menino e os fatos aconteciam sem que pudesse prever...
Sou gente grande!
Agora é pior. Os fatos continuam acontecendo sem prévio aviso, porém não com o mesmo curso natural da inocência infantil, mas com o receio da dor que criamos para nós mesmos, pois não sabemos o que está por vir.
A comodidade dos acontecimentos cotidianos toma mais valor que a novidade da descoberta, mesmo que seja a descoberta de si próprio, que é o mais difícil de retomar...
Há tempos meu amigo imaginário foi pastar em outros campos, deixando-me vazio e sem rumo por algum tempo... Sem se dar conta que ainda anseio sua volta.
Ah! Como era mais simples viver com ele ao meu lado.
Daí, vamos crescendo e ter um amigo a vida toda não faz parte do mundo adulto...
Por isso ele tomou o trem.
Tudo na infância, quando me recordo, era fácil.
Cheguei a ter dez primeiros amores infantis, cada um a sua maneira platônica de existir.
Sinto falta deles também.
Era simples de conduzir um amor assim. Não me era cobrado nada e muito menos eu os cobrava de algo.
Minhas realizações vinham de meus sonhos, por isso não esperava nada. Até por que, nada queria...
Mas não se para de crescer ai. Continua-se crescendo e crescendo e daí em diante os sonhos se tornam pesadelos por querermos realizá-los. É aqui que o curso natural se perde. Aos dezessete anos.
Queremos ser nós mesmos ainda, mas os outros querem que sejamos outra pessoa que não nós, porém nem Gandhi, muito menos Mussolini.
Ninguém explica a matéria e cobra a resposta e, é ai que ele faz falta. O Zé. Ou seria Joaquim?
Qual era o nome dele? Do meu amigo imaginário? O tempo levou. Escondeu dentro das minhas aspirações de voar quando criança...
Mas é claro, isso tudo passa. As espinhas também. O tempo ajuda nisso.
E volto para cá, ainda sem entender por que me coloquei de frente ao precipício... Ao desconhecido...
Sendo franco, não é um desconhecido não explorado, sim esquecido, ou abdicado.
Mas sou eu que vou ao precipício! Ele não anda!
Se eu fosse criança, pularia nele.
Ai é que me pergunto. O que mudou?
O medo? A responsabilidade? A comodidade? Ou eu perdi a prática?
Vou me aproximar dele. Do precipício.
A queda é alta.
Se eu pular poderei-me “estabacar” no chão.
Se eu não pular, não saberei.
Sozinho é difícil decidir.
Uma voz me diz: Pule! – mas não se engane, não é meu amigo de outrora, sim minha velha amiga Paixão.
“Pule!” – grita outra vez.
Pulei.
A queda livre me estremece o corpo e aquela sensação infantil ressurge com tanta intensidade que parece nunca ter ido.
O chão está mais perto de mim.
“Vou virar pasta nesse chão. Tapete de sala de estar...”
Envolto nesses pensamentos mal percebo o chão.
Não chego ao chão.
Não cheguei nem perto do chão.
Quando a Paixão gritou: “Atire-se do precipício” logo me empurrou e pulou ao meu lado...
Quando pensei estarmos caindo, voamos.